João Carlos Cabral Fernandes, conhecido como Cabral Fernandes, é um psiquiatra e activista político português. Foi cofundador e primeiro dirigente da Liga Comunista Internacionalista (LCI), organização trotskista ligada ao Secretariado Unificado da IV Internacional, e uma das figuras centrais da corrente que deu origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR) e, mais tarde, ao Bloco de Esquerda.

Primeiros anos Cabral Fernandes passou a infância em Angola, onde o pai exerceu funções de secretário-geral e governador distrital. Aos 12 anos, veio para Portugal, frequentando um colégio interno em Oliveira de Azeméis. Prosseguiu os estudos em Coimbra, no Liceu D. João III, onde começou a conviver com pessoas de origens sociais diversas. Em 1964, ingressou no curso de Medicina na Universidade de Coimbra, vivendo numa república mista que ele próprio fundou com outros estudantes. Foi sempre delegado de curso e viveu a crise académica de 1969, um momento decisivo na sua politização.

Actividade política clandestina

Movimento estudantil e primeiras leituras Em Coimbra, Cabral Fernandes defendia, nas reuniões associativas, a realização de manifestações mais politizadas, influenciado pela vaga de acontecimentos de Maio de 1968. Nesta época, teve acesso a livros proibidos pela censura, entre eles obras de Leon Trótski, que encontrou na casa de um advogado, e que descreve como determinantes na sua formação política. Em 1969, desenvolveu com Francisco Sardo uma corrente revolucionária no meio estudantil de Coimbra, alternativa às correntes dominantes na esquerda universitária, e participou na Direção Académica.

Contacto com a IV Internacional Em 1971, Cabral Fernandes viajou a França com Jorge Novais, onde contactou a Liga Comunista Revolucionária (LCR), tendo-se reunido com Daniel Bensaïd e Alain Krivine. Os delegados portugueses decidiram estabelecer relações com a LCR e com o Secretariado Unificado da IV Internacional, em vez da corrente rival lambertista. No final desse ano, instalou-se em Lisboa com o camarada José Falcão.

Grupos de Acção Comunista e fundação da LCI Em 1972, Cabral Fernandes criou os Grupos de Acção Comunista (GAC) em Lisboa, paralelamente aos núcleos de Francisco Sardo no Porto e de Marinho da Silva em Coimbra. Os GAC desenvolveram actividade clandestina, publicando panfletos, o boletim estudantil Toupeira Vermelha e o jornal Luta Proletária, e centraram a sua intervenção na luta anticolonial. Na véspera do 1.o de Maio de 1973, numa distribuição clandestina, foram presos os camaradas Alfredo Frade, José Manuel Boavida e António Gomes, levados para Caxias e submetidos a torturas. Cabral Fernandes, que se encontrava no carro de apoio, conseguiu escapar. Em Dezembro de 1973, os três GAC regionais reuniram-se na conferência de fundação da LCI, em São Bernardino, Peniche, na casa do militante Manuel Cavaco. Estiveram presentes dois delegados da Quarta Internacional, Michael Löwy e Paco Robs. O Comité Central eleito incluiu Cabral Fernandes, João Alcântara e Manuel Faustino por Lisboa, Francisco Sardo e Ferreira dos Santos pelo Porto, e Carlos Queirós por Coimbra.

Revolução dos Cravos e período revolucionário A Revolução de 25 de Abril de 1974 encontrou a LCI com cerca de 17 militantes. Cabral Fernandes, como principal organizador do partido, contribuiu para o seu alargamento para 50 a 60 elementos, recrutando nessa altura, entre outros, o jovem Francisco Louçã. Em Julho de 1974, discursou no primeiro comício público da LCI, realizado em Almada, no qual a organização defendeu o fim da guerra colonial e apresentou a sua posição face às greves operárias. O comício foi coberto pela RTP. Em Junho de 1975, abandonou a carreira médica para se dedicar a tempo inteiro à actividade partidária. No III Congresso da LCI, em Janeiro de 1976, foi eleita uma nova direcção da qual fazia parte, juntamente com António Brandão, Francisco Louçã, Alfredo Frade e Heitor de Sousa.

Candidatura presidencial de 1976 Em Maio de 1976, Cabral Fernandes integrou a mesa da conferência de imprensa que anunciou a candidatura de Arlete Vieira da Silva à eleição presidencial, como candidata conjunta da LCI e do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). A candidatura colapsou antes da formalização, quando uma investigação interna revelou que a biografia da candidata continha afirmações falsas. Em Dezembro de 1977, pronunciou-se na RTP, em nome do comité executivo da LCI, sobre o momento político.

Partido Socialista Revolucionário Em 1978, a LCI fundiu-se com o PRT, dando origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). Nas eleições legislativas de 1979, Cabral Fernandes ficou a cerca de dois mil votos de ser eleito deputado por Lisboa, tendo o PSR obtido o seu melhor resultado até então, com aproximadamente 60 000 votos. Em 1998, no 25.o aniversário da fundação da LCI, o PSR promoveu um debate público no Hotel Roma, em Lisboa, com a participação de Alain Krivine, Fernando Rosas e Cabral Fernandes.

Afastamento da política e carreira médica No final de 1981, Cabral Fernandes começou a apresentar sinais de depressão, que evoluiu para um quadro com características psicóticas, agravado pelo desgaste da dedicação a tempo inteiro à actividade revolucionária e pela percepção de que o projecto político não se concretizaria. Abandonou a actividade partidária em 1982. Após um longo período de recuperação, dedicou-se exclusivamente à Psiquiatria, tendo trabalhado no Hospital Júlio de Matos, onde chegou a director clínico. Encontra-se inscrito na Ordem dos Médicos (cédula n.o 13259) como especialista em Psiquiatria, na secção Sul, com distrito profissional em Lisboa. Reformou-se do serviço público em Abril de 2016, aos 70 anos, passando a dedicar-se exclusivamente à clínica privada em Lisboa. A partir de 2013, fez as primeiras críticas públicas ao Bloco de Esquerda.

Legado

A LCI, posteriormente reorganizada como PSR, foi um dos partidos fundadores do Bloco de Esquerda, em 1999. Cabral Fernandes é reconhecido como o primeiro líder da LCI e uma das figuras fundadoras do trotskismo organizado em Portugal ligado ao Secretariado Unificado.

Referências